Textos sem compromisso, conversas marginais.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Experiência de alteridade n° 3

Bem, havia algum tempo que Francisco estava sentado naquele café. Algumas horas, pelo menos. Alguns cafés, alguns biscoitos, revistas da semana e o jornal do dia não deixaram que ele ficasse tão entediado. De fato, ele não esperava por ninguém, tinha saído de casa simplesmente pelo prazer de fazê-lo. Já não podia evitar de observar as pessoas que passavam pelo café. Entre um cigarro e outro, ficava imaginando como seria a vida das pessoas que ele via de onde estava sentado. Era uma mesa pequena, confeccionada com uma espécie de palha que envolvia uma armação de metal. Tinha também um tampo de vidro, onde estavam uma xícara vazia e um cinzeiro cheio. Francisco estava sentado em uma cadeira ao mesmo estilo da mesa, havia a palha e o metal. Ele ocupava uma cadeira e havia uma outra em que ele esticava as pernas. Ele era bonito, não se pode negar. Andava um bocado desleixado, também não se pode negar. Trajava sandálias de couro, uma bermuda de um tecido natural e uma camiseta simples. E também óculos escuros.
Por trás das lentes, ele fitava as pessoas que por ali passavam. Achava importante que elas não o vissem olhando. Ora, por vezes, era uma situação inusitada, ele via alguém caminhando e começava a conjecturar sobre a vida desse alguém. Talvez, fazer projeções de suas expectativas ou descarregar frustrações sobre aquelas vidas tão indefesas. A verdade é que ele detinha o controle, pelo menos por alguns instantes, sobre o destino daquelas pessoas. Sua vida, há algum tempo, não era mais a mesma. Possivelmente, por esse motivo não se importava de carregar esse fardo. Quero dizer, de ter nas mãos o destino das pessoas que passavam na porta do café. Francisco sempre foi um sujeito peculiar, mas não sei se em outras condições carregaria esse fardo com tamanha naturalidade. Você poderia dizer, se o conhecesse. Também há que se levar em consideração que ele poderia dizer melhor sobre isso do que eu. É verdade.
Ele se deteve por algum tempo numa garota. Ele não pôde evitar, o cabelo preto e o vestido solto o fariam lembrar dela em qualquer circunstância. De uma outra garota. Talvez seja melhor não trazer essa garota, essas situações mal resolvidas sempre são muito traumáticas, não me leve a mal. Depois houve um senhor, ele não dedicou muito tempo a esse. Bem, ele voltou a deliberar sobre a vida da garota do vestido solto. Acendeu outro cigarro, isso o fez notar uma criança vindo com um cachorro. Estava amarrado numa coleira, daquelas de corrente. Antiquada, poderia se dizer, Francisco gosta dessas coisas antiquadas, sua casa era cheia dessas velharias. Pensou que os pais do garoto talvez fossem como ele, ou talvez o cachorro fosse dos avós do menino. Ele bem que gostaria de ter um cachorro a essa altura, talvez não tivesse se habituado a viver sozinho novamente, poxa, cá estamos falando da garota de novo. Esses assuntos mal resolvidos, por mais que delicados, sempre acabam nos atraindo de algum jeito.
Pediu outro café, enquanto esperava, pensou nos filhos que aquela garçonete havia deixado em casa. O mais velho cuidando do mais novo e esse de um mais novo... conseguia pensar em uns quatros filhos. Ela já estava um pouco gasta. Francisco também é um pouco cruel, mas quem não seria? Tendo a possibilidade de deliberar, sem peso e sem culpa, sobre a vida dessas pessoas, eu não conheço nenhum bom cristão que não seria nem um pouco perverso, pelo menos. Quando ela voltou trazendo o café, ele sorriu um sorriso amarelo tentando nadar contra a corrente de pensamentos que surgiam. Acabou percebendo que ela não usava aliança, é claro! Bem, devo me desculpar, a mim ainda restam o peso e a culpa. Quando terminou o café, sentiu vontade de ir embora, mas, definitivamente, era melhor permanecer, estava numa posição tão confortável, apesar da cadeira. E do sol.
Em casa, ele sabia o que o esperava. Talvez fosse interessante, levar um desses cachorros de rua pra casa, poderia ajudar, sem dúvida. Sem dúvida, teria alguns problemas, levar a um veterinário, num pet shop. Talvez fossem no mesmo lugar, seria mais fácil assim. Ah, teria também o vermífugo, um cachorro de rua, certamente, precisaria de um vermífugo. Talvez fosse melhor comprar um, não acho provável, se me permite dizer; sair de casa pra tomar café já era um grande gasto. Tem juntado dinheiro para trocar o carro, embora já tivesse suficiente pra comprar um modelo do ano, mesmo sem o dinheiro da venda do carro velho, melhor dizer logo, Francisco é um tanto sovina. E um animal de fato é, praticamente, uma boca a mais pra alimentar. Embora, não seja esse o consumo que sairia mais caro a ele. Francisco é o que eu chamaria de sovina sentimental, além de tudo. Há quem diga que esse foi o motivo do abandono. Bem, concordamos que não falaríamos sobre isso.
Após, terminar o café, abriu a carteira, titubeou entre a nota de cem e de cinquenta, queria fazer uma graça àquela garçonete, com quatro filhos, pensou, melhor que ela consiga alguma gorjeta. Acendeu um outro cigarro, levantou-se e seguiu caminhando. Bem, voltaria a solidão daquela casa. Os passos dele quase ecoavam quando ele caminhava de um cômodo a outro. Trabalharia mais, arranjaria um outro emprego, ficar em casa não seria uma boa escolha. Talvez um gato fosse uma melhor aquisição, demanda menos. Ou talvez, ele precisasse mesmo de um cachorro. Já era grandinho o suficiente pra não saber lidar, ainda, com essa questão. Do afeto, eu digo. Já passa da hora de resolver esses problemas. Bem, depois de sumir no horizonte, talvez ele tenha começado a pensar sobre o assunto, mas não se pode dizer ao certo.

Por conta da casa

Butiquim, boteco, botequim, bar, pé sujo, copo sujo, birosca... Faça seu pedido, que a gente desce mais uma. Sempre vai ter um por conta da casa. Só não vale pedir a saideira.