Bem, havia algum tempo que Francisco estava sentado naquele café.
Algumas horas, pelo menos. Alguns cafés, alguns biscoitos, revistas
da semana e o jornal do dia não deixaram que ele ficasse tão
entediado. De fato, ele não esperava por ninguém, tinha saído de
casa simplesmente pelo prazer de fazê-lo. Já não podia evitar de
observar as pessoas que passavam pelo café. Entre um cigarro e
outro, ficava imaginando como seria a vida das pessoas que ele via de
onde estava sentado. Era uma mesa pequena, confeccionada com uma
espécie de palha que envolvia uma armação de metal. Tinha também
um tampo de vidro, onde estavam uma xícara vazia e um cinzeiro
cheio. Francisco estava sentado em uma cadeira ao mesmo estilo da
mesa, havia a palha e o metal. Ele ocupava uma cadeira e havia uma
outra em que ele esticava as pernas. Ele era bonito, não se pode
negar. Andava um bocado desleixado, também não se pode negar.
Trajava sandálias de couro, uma bermuda de um tecido natural e uma
camiseta simples. E também óculos escuros.
Por trás das lentes, ele fitava as pessoas que por ali passavam.
Achava importante que elas não o vissem olhando. Ora, por vezes, era
uma situação inusitada, ele via alguém caminhando e começava a
conjecturar sobre a vida desse alguém. Talvez, fazer projeções de
suas expectativas ou descarregar frustrações sobre aquelas vidas
tão indefesas. A verdade é que ele detinha o controle, pelo menos
por alguns instantes, sobre o destino daquelas pessoas. Sua vida, há
algum tempo, não era mais a mesma. Possivelmente, por esse motivo
não se importava de carregar esse fardo. Quero dizer, de ter nas
mãos o destino das pessoas que passavam na porta do café. Francisco
sempre foi um sujeito peculiar, mas não sei se em outras condições
carregaria esse fardo com tamanha naturalidade. Você poderia dizer,
se o conhecesse. Também há que se levar em consideração que ele
poderia dizer melhor sobre isso do que eu. É verdade.
Ele se deteve por algum tempo numa garota. Ele não pôde evitar, o
cabelo preto e o vestido solto o fariam lembrar dela em qualquer
circunstância. De uma outra garota. Talvez seja melhor não trazer
essa garota, essas situações mal resolvidas sempre são muito
traumáticas, não me leve a mal. Depois houve um senhor, ele não
dedicou muito tempo a esse. Bem, ele voltou a deliberar sobre a vida
da garota do vestido solto. Acendeu outro cigarro, isso o fez notar
uma criança vindo com um cachorro. Estava amarrado numa coleira,
daquelas de corrente. Antiquada, poderia se dizer, Francisco gosta
dessas coisas antiquadas, sua casa era cheia dessas velharias. Pensou
que os pais do garoto talvez fossem como ele, ou talvez o
cachorro fosse dos avós do menino. Ele bem que gostaria de ter um cachorro
a essa altura, talvez não tivesse se habituado a viver sozinho
novamente, poxa, cá estamos falando da garota de novo. Esses
assuntos mal resolvidos, por mais que delicados, sempre acabam nos
atraindo de algum jeito.
Pediu outro café, enquanto esperava, pensou nos filhos que aquela
garçonete havia deixado em casa. O mais velho cuidando do mais novo
e esse de um mais novo... conseguia pensar em uns quatros filhos. Ela
já estava um pouco gasta. Francisco também é um pouco cruel, mas
quem não seria? Tendo a possibilidade de deliberar, sem peso e sem
culpa, sobre a vida dessas pessoas, eu não conheço nenhum bom
cristão que não seria nem um pouco perverso, pelo menos. Quando ela
voltou trazendo o café, ele sorriu um sorriso amarelo tentando nadar
contra a corrente de pensamentos que surgiam. Acabou percebendo que
ela não usava aliança, é claro! Bem, devo me desculpar, a mim
ainda restam o peso e a culpa. Quando terminou o café, sentiu
vontade de ir embora, mas, definitivamente, era melhor permanecer,
estava numa posição tão confortável, apesar da cadeira. E do sol.
Em casa, ele sabia o que o esperava. Talvez fosse interessante,
levar um desses cachorros de rua pra casa, poderia ajudar, sem
dúvida. Sem dúvida, teria alguns problemas, levar a um veterinário,
num pet shop. Talvez fossem no mesmo lugar, seria mais fácil assim.
Ah, teria também o vermífugo, um cachorro de rua, certamente,
precisaria de um vermífugo. Talvez fosse melhor comprar um, não
acho provável, se me permite dizer; sair de casa pra tomar café já
era um grande gasto. Tem juntado dinheiro para trocar o carro, embora
já tivesse suficiente pra comprar um modelo do ano, mesmo sem o
dinheiro da venda do carro velho, melhor dizer logo, Francisco é um
tanto sovina. E um animal de fato é, praticamente, uma boca a mais
pra alimentar. Embora, não seja esse o consumo que sairia mais caro
a ele. Francisco é o que eu chamaria de sovina sentimental, além de
tudo. Há quem diga que esse foi o motivo do abandono. Bem,
concordamos que não falaríamos sobre isso.
Após, terminar o café, abriu a carteira, titubeou entre a nota de
cem e de cinquenta, queria fazer uma graça àquela garçonete, com
quatro filhos, pensou, melhor que ela consiga alguma gorjeta. Acendeu
um outro cigarro, levantou-se e seguiu caminhando. Bem, voltaria a
solidão daquela casa. Os passos dele quase ecoavam quando ele
caminhava de um cômodo a outro. Trabalharia mais, arranjaria um
outro emprego, ficar em casa não seria uma boa escolha. Talvez um
gato fosse uma melhor aquisição, demanda menos. Ou talvez, ele
precisasse mesmo de um cachorro. Já era grandinho o suficiente pra
não saber lidar, ainda, com essa questão. Do afeto, eu digo. Já
passa da hora de resolver esses problemas. Bem, depois de sumir no
horizonte, talvez ele tenha começado a pensar sobre o assunto, mas
não se pode dizer ao certo.