Textos sem compromisso, conversas marginais.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Pai ou como o inverno nos matou

Na primavera papai veio morar comigo. Depois de três anos, eu preciso admitir que hesitei. Tive medo. Não era fácil imaginar que todo aquele turbilhão de sentimentos voltariam, assim, de repente. Mas foi justamente assim que aconteceu, de repente. Um dia ele estava aqui, resolvendo coisas, na outra semana tinha vindo de mudança. A mim, não me haviam sobrado tantas opções. Eu devia aceitar. Lidar da melhor forma possível, é meu pai afinal de contas e apesar de tudo. No começo, as coisas foram, surpreendentemente, mais simples do que eu imaginava. Confesso, até mais simples do que eu queria. Nunca fomos de ter muitas conversas, mas estávamos nos entendendo. Conversávamos sobre assuntos pungentes, a política, meu trabalho, o trabalho dele. Tudo muito solene, tudo como se fôssemos pensadores e divagássemos sobre todos aqueles assuntos triviais. Até saímos um dia para tomar uma cerveja. Algumas. Conversamos de muitas coisas. Chorei a maior parte do tempo. Eu achava que eu já não tinha mais lágrimas pra chorar sobre ele ou com ele. Quando eu saí de casa eu estava num estado de urgência, de emergência. Nós nunca íamos no ponto da nossa questão, nós circundávamos esse ponto, eu chorava e a gente se amava para sempre, como se não houvesse ontem ou amanhã. Eu, por muitas vezes, até achava que finalmente a gente tinha se entendido dessa vez.
No geral, tivemos uma boa primavera. Ele cozinhou muito. Sempre gostei, é uma comida de homem, como ele gosta de chamar. Ervas, temperos, pimentas, sal. Também tomei muito café. Café de homem também, café macho, na verdade. Ele sempre era tolerante. O cigarro não incomodava, minha ausência não incomodava. Minha presença, especialmente, não incomodava. Muitos domingos, ele cozinhava e a gente bebia. Eu bebia pouco, nunca achei que fosse ocasião para investir muito. Mas bebemos, sim, caipirinhas, cervejas, outras vezes, chegamos até a ter umas talagadas de cachaça pura ou rum. Eram importantes para ele, se sentia orgulhoso. Em certa medida, e em algum momento da minha vida, eu tinha me tornado um homem. Um homem diferente, pelo menos, do que ele esperava. Mas, no fim das contas, eu quase sentia que ele estava orgulhoso. Era tocante, ou quase. Vivíamos nessas ambiguidades. É, tivemos uma primavera plena. Uma primavera.
No verão, as coisas pareciam continuar agradáveis. E estavam, até um evento familiar, desses que parecem inofensivos. Festa de criança, sabe. Só que os doces amargaram. Eu não presenciei a confusão. Alguém me disse, não me lembro mais, que eu estava envolvido de algum jeito. Não tinha certeza de qual o meu envolvimento. Mas de certo que sim, era eu mesmo. Era sempre eu, ou sempre ele. Ou sempre a gente. Eu estava tricotando com umas primas e tias. E ele com os primos e tios. Em algum momento, talvez uma conversa enviesada, alguma piada atravessada. Alguma coisa aconteceu, ninguém nunca me disse ao certo o que foi. O doce amargou. Depois desse dia, as coisas degringolaram. Nossos momentos juntos minguaram. Não falávamos mais, nem de política, nem do meu trabalho, nem do dele. Soube, depois, que as coisas não estavam bem no trabalho dele. Não da boca dele. Continuei tendo o café macho, o que já não se tinha com tanta frequência eram as refeições em casa. No almoço, saíamos para comer.  No jantar, eu comia sozinho, ele bebia sozinho. Assim, eu imagino, sei que ele não bebia mais em casa. Ele vinha dormir, geralmente, tanto depois do almoço, quanto depois da cerveja.
Não sou hipócrita, eu também bebi sem ele. Não é isso, é outra coisa. É pior. Eu deixei acontecer, eu não o procurei, acabei deixando as coisas esfriarem, logo no verão. Foi um verão difícil, mas eu tive piores. Achei que, eventualmente, as coisas melhorariam. Tive férias, no verão, achei que a distância ia ser uma boa oportunidade. Quando voltei, era como se eu tivesse deixado tudo em suspenso. Estava tudo igual, parecia que eu havia voltado à história no mesmo ponto em que eu a deixei. Trabalhei como burro de carga, na volta das férias. Me ocupei de todos os jeitos, a gente tem a falsa ilusão de que isso funciona, de fato, eu tinha menos tempo para lamentar, mas tinha menos tempo ainda para fazer qualquer coisa. Eu tinha tantos planos, tantas metas, objetivos, estava obstinado, coisa que eu nunca fui. Estava, de alguma maneira, tentando ser feliz, tentando ser leve. Foi um verão meu, em certa medida. Tudo eu, nada ele, quase nada a gente. Eu fiz, eu quis, eu fiz e aconteci. Foi meu aniversário, eu fiquei doente, precisei dele. Ele esteve lá, ou quase lá, foi quase presente, quase todos os dias. Quando melhorei, eu resolvi comemorar meu aniversário com alguns amigos, acho que ele esperava que eu o convidasse, não achei que fosse o caso. Não tivemos um verão.
Do outono, eu quase não me lembro de nada. Acho que continuei na mesma. Continuamos, o outono não foi só meu, mas não foi dele. Tive vontades, reprimidas, cuidadosamente. Pessoas que haviam sido, não eram mais, eu achei que fossem, e, no fim de tudo, não eram mesmo. Não me lembro de quase nada, acho que eu acabei esquecendo das coisas. O outono precedeu nossa pior época, acho que, por isso, acaba ficando quase incólume quando tento recordar. Foi um outono de muitos eventos sociais, formaturas, aniversários, eventos no trabalho. Dúvidas, foi um tempo de muitos questionamentos. Sobre tudo, se isso me exime de tentar lembrar quais foram os questionamentos. Ah, existe algo de que me lembro bem, houve, no outono, uma espécie de sequência do evento familiar do verão. Dessa vez, foi mais claro entender quais eram as questões a meu respeito envolvidas. Tínhamos um outro aniversário para ir, brigamos e ele acabou não indo. Eu fui, humilhado, mas fui. Foi doloroso, eu nunca havia me sentido tão desamparado. Essa é, provavelmente, minha principal lembrança do outono. Eu tentei me libertar de papai durante o outono, acho que isso me fez esquecer de boa parte das coisas. Acho que eu não tive um outono, ou meio que tive.
Finalmente, veio o inverno. Fiquei com medo de acabar morrendo nos clichês das estações do ano. Depois refleti, de fato foi assim mesmo que tudo aconteceu, então, fiquei com medo de ter vivido um clichê, de toda a minha vida ser um enorme clichê. Acabei refletindo mais e é isso mesmo. Viver é clichê. A vida é trivial. Enfim, o inverno foi de fato o pior, mesmo. Eu sobrevivi ao verão, me esqueci do outono, mas o inverno veio implacável. Tudo piorou. Consegui outro trabalho, havia voltado a me dedicar aos estudos, não podia pensar em mais nada, ou em ninguém. Não podia sofrer, não havia maneira, eu pensava. No fim do outono, minha mãe veio de férias, quando ela foi embora, eu voltei a reparar no meu pai. Ele, agora, bebia sete vezes por semana e trabalhava. A gente mal se falava, eu achava que tinha me libertado dele no outono. Tive um problema em um dos empregos e acabei sendo demitido. Uma maré de problemas veio, como num dia de ressaca, e me arremessou pro fundo do mar da amargura e do azedume. Eu estava azedo, intragável, intolerável. Ele não olhava na minha cara, eu, às vezes, me esquecia de que ele morava lá. Poucas vezes que nos falamos, brigávamos por qualquer coisa, solenemente, como eram as conversas do verão, só que aqui eram brigas. Sobre os nossos posicionamentos políticos, sobre o meu trabalho, sobre o dele.
As coisas foram ficando insustentáveis, nos fins de semana era tudo pior. Quando estávamos em casa, me recuso a dizer que estivemos juntos em qualquer desses dias, era constrangedor. Quarenta e oito horas, praticamente, trancafiados num apartamento sem trocar um bom dia que fosse. Nada. Ele fazia a comida dele, eu saia para comer. Eu voltei a fumar em casa, costumo negar que tenha sido uma tentativa de fazer com que ele me notasse, mas acho que foi isso mesmo. Eu achei que no verão eu tivesse, mesmo, secado minhas lágrimas, mas como eu chorei. No fim de tudo, eu estava tão entorpecido, anestesiado por estar submerso numa melancolia e em pensamentos nostálgicos sobre a minha infância, que quase não senti nada. O fim começou quando eu viajei a trabalho. Eu passei cinco dias fora, havia comunicado, solenemente. Ele fez que sim, como quem não se importasse. Quando voltei, cheguei em casa e ele não estava, nem no outro dia e nem no outro. Fui trabalhar, voltei e nada. Tentei falar com ele, nada. Nesse mesmo dia, à noite, eu coloquei em caixas de papelão tudo que era dele, todas as roupas, todos os calçados, todas as coisas. Tudo. Arrumei tudo na sala. Eu estava tranquilamente aflito, ou aflitamente tranquilo. Me servi um uísque, sem gelo, só uísque. Acendi um cigarro e me prometi refazer o ritual até que eu escutasse o som da chave na porta e ele entrasse com a mesma cara de sempre, como se nada tivesse acontecendo. Não precisei de muito, na segunda dose, ele abriu a porta. Na quinta, ele fechou.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sobre como evitar as rachaduras

Entrou na sala ajeitando o cabelo, tentando se fazer apresentável. Conseguir o emprego era fundamental, era preciso mudar. Sentou na frente da secretária e disse que havia vindo pela entrevista de emprego, que havia lido sobre a vaga no jornal e que estava ansioso para começar. Ela deve ter imaginado que ele estava desesperado, quem não está, ultimamente? Aguardou sentado num sofá, teve que sair da mesa da secretária. Apesar da tranquilidade que ela passava, e ela passava, tinha um rosto tão cheio de ternura, ele precisou deixá-la trabalhar. Afinal de contas ela tem um emprego e só ela entre os dois, por enquanto.
Decidiu ir ao banheiro antes da entrevista. Tinha um cheiro de urina e eucalipto, creio que havia uma vaga para faxineiro também. Iniciou o ritual; abriu o zíper e a torneira, tirou o membro pra fora e começou a esperar. Sentia dificuldade para urinar em momentos de tensão e ansiedade. Enquanto esperava pensou que seria um mau sinal se o chamassem e ele não estivesse lá. Resolveu que era melhor esperar o fim da entrevista para usar o banheiro. Saindo, escutou que o chamavam, mas não havia lavado as mãos. Na verdade, agora que parou para pensar, não lembrava nem se ao menos havia fechado a torneira. O chefe em potencial o olhava enquanto ele refletia sobre essas questões de gravidade duvidosa. Estendeu, enfim a mão e foi convidado a entrar na sala.
Embora ainda fizesse um último esforço para relembrar se havia fechado a torneira ou não, iniciou a entrevista se apresentando. Disse que se chamava Antônio, tinha vinte e nove anos. Antes de terminar a apresentação, decidiu pedir licença. Disse que estava preocupado se havia fechado ou não a torneira do banheiro. Deixou para trás um homem estarrecido, que deu de ombros sem compreender o que se passava. Ao chegar no banheiro percebeu que havia fechado a torneira. Aproveitou e lavou as mãos. Alguém poderia ter utilizado o banheiro depois e ter fechado a torneira, bem, agora não importa mais. Ao retornar, foi confrontado sobre os motivos que o levaram sair do último emprego, e os que o levaram a se inscrever para essa vaga. Antônio não respondeu claramente nenhuma das perguntas. Em verdade, poderia se dizer que Antônio mesmo não sabia claramente essas respostas.
Saindo da entrevista, agradeceu a recepcionista, ou o termo seria secretária. Ficou se questionando sobre a diferença. Caminhou na calçada, evitando as rachaduras. Creio que seria acertado dizer que ele não costumava carregar consigo nenhum expressão que lhe fosse característica. Antônio é o que costumamos chamar de homem comum, daqueles que costumam passar batido. A não ser que seja observado mais de perto. Nesse caso, é provável que descobríssemos algumas peculiaridades. Seguiu caminhando, quando percebeu que deveria ter dobrado uma esquina que já ficou para trás. Estava entretido evitando as rachaduras. Apesar de ter lhe tomado mais tempo, achou a caminhada prazerosa. Antônio não usava o elevador, preferia as escadas. Entrou em casa e ouviu a secretária eletrônica. Curiosamente, ele não titubeava quanto a esse termo. Nunca refletia se esse era secretária ou recepcionista.
Nos dias seguintes, tentou marcar outras entrevistas. Não foi feliz, mas não lhe passou pela cabeça que deveria ter comprado um outro jornal. Para todas as vagas que tentou agendar uma entrevista, escutou que já havia sido preenchida. Enquanto caminhava até o banheiro, escutou o telefone tocar. Preferiu se aliviar no banheiro. Abriu o zíper, mas o telefone insistia. Apesar de não ser instaurada, necessariamente, uma tensão, isso também o inibia. Foi ao telefone e quando tocava cansado e insistente pela última vez, o arrancou do gancho. Alô, sim, é ele. Ah, certo, que bom. Quando eu preciso aparecer aí? Tão cedo? Imagina, estarei, sim. Até logo. Parece que ele conseguiu aquele emprego.