Entrou na sala ajeitando o cabelo, tentando se fazer apresentável. Conseguir o emprego era fundamental, era preciso mudar. Sentou na frente da secretária e disse que havia vindo pela entrevista de emprego, que havia lido sobre a vaga no jornal e que estava ansioso para começar. Ela deve ter imaginado que ele estava desesperado, quem não está, ultimamente? Aguardou sentado num sofá, teve que sair da mesa da secretária. Apesar da tranquilidade que ela passava, e ela passava, tinha um rosto tão cheio de ternura, ele precisou deixá-la trabalhar. Afinal de contas ela tem um emprego e só ela entre os dois, por enquanto.
Decidiu ir ao banheiro antes da entrevista. Tinha um cheiro de urina e eucalipto, creio que havia uma vaga para faxineiro também. Iniciou o ritual; abriu o zíper e a torneira, tirou o membro pra fora e começou a esperar. Sentia dificuldade para urinar em momentos de tensão e ansiedade. Enquanto esperava pensou que seria um mau sinal se o chamassem e ele não estivesse lá. Resolveu que era melhor esperar o fim da entrevista para usar o banheiro. Saindo, escutou que o chamavam, mas não havia lavado as mãos. Na verdade, agora que parou para pensar, não lembrava nem se ao menos havia fechado a torneira. O chefe em potencial o olhava enquanto ele refletia sobre essas questões de gravidade duvidosa. Estendeu, enfim a mão e foi convidado a entrar na sala.
Embora ainda fizesse um último esforço para relembrar se havia fechado a torneira ou não, iniciou a entrevista se apresentando. Disse que se chamava Antônio, tinha vinte e nove anos. Antes de terminar a apresentação, decidiu pedir licença. Disse que estava preocupado se havia fechado ou não a torneira do banheiro. Deixou para trás um homem estarrecido, que deu de ombros sem compreender o que se passava. Ao chegar no banheiro percebeu que havia fechado a torneira. Aproveitou e lavou as mãos. Alguém poderia ter utilizado o banheiro depois e ter fechado a torneira, bem, agora não importa mais. Ao retornar, foi confrontado sobre os motivos que o levaram sair do último emprego, e os que o levaram a se inscrever para essa vaga. Antônio não respondeu claramente nenhuma das perguntas. Em verdade, poderia se dizer que Antônio mesmo não sabia claramente essas respostas.
Saindo da entrevista, agradeceu a recepcionista, ou o termo seria secretária. Ficou se questionando sobre a diferença. Caminhou na calçada, evitando as rachaduras. Creio que seria acertado dizer que ele não costumava carregar consigo nenhum expressão que lhe fosse característica. Antônio é o que costumamos chamar de homem comum, daqueles que costumam passar batido. A não ser que seja observado mais de perto. Nesse caso, é provável que descobríssemos algumas peculiaridades. Seguiu caminhando, quando percebeu que deveria ter dobrado uma esquina que já ficou para trás. Estava entretido evitando as rachaduras. Apesar de ter lhe tomado mais tempo, achou a caminhada prazerosa. Antônio não usava o elevador, preferia as escadas. Entrou em casa e ouviu a secretária eletrônica. Curiosamente, ele não titubeava quanto a esse termo. Nunca refletia se esse era secretária ou recepcionista.
Nos dias seguintes, tentou marcar outras entrevistas. Não foi feliz, mas não lhe passou pela cabeça que deveria ter comprado um outro jornal. Para todas as vagas que tentou agendar uma entrevista, escutou que já havia sido preenchida. Enquanto caminhava até o banheiro, escutou o telefone tocar. Preferiu se aliviar no banheiro. Abriu o zíper, mas o telefone insistia. Apesar de não ser instaurada, necessariamente, uma tensão, isso também o inibia. Foi ao telefone e quando tocava cansado e insistente pela última vez, o arrancou do gancho. Alô, sim, é ele. Ah, certo, que bom. Quando eu preciso aparecer aí? Tão cedo? Imagina, estarei, sim. Até logo. Parece que ele conseguiu aquele emprego.