Na
primavera papai veio morar comigo. Depois de três anos, eu preciso admitir que
hesitei. Tive medo. Não era fácil imaginar que todo aquele turbilhão de
sentimentos voltariam, assim, de repente. Mas foi justamente assim que
aconteceu, de repente. Um dia ele estava aqui, resolvendo coisas, na outra
semana tinha vindo de mudança. A mim, não me haviam sobrado tantas opções. Eu
devia aceitar. Lidar da melhor forma possível, é meu pai afinal de contas e
apesar de tudo. No começo, as coisas foram, surpreendentemente, mais simples do
que eu imaginava. Confesso, até mais simples do que eu queria. Nunca fomos de
ter muitas conversas, mas estávamos nos entendendo. Conversávamos sobre
assuntos pungentes, a política, meu trabalho, o trabalho dele. Tudo muito
solene, tudo como se fôssemos pensadores e divagássemos sobre todos aqueles
assuntos triviais. Até saímos um dia para tomar uma cerveja. Algumas.
Conversamos de muitas coisas. Chorei a maior parte do tempo. Eu achava que eu
já não tinha mais lágrimas pra chorar sobre ele ou com ele. Quando eu saí de
casa eu estava num estado de urgência, de emergência. Nós nunca íamos no ponto
da nossa questão, nós circundávamos esse ponto, eu chorava e a gente se amava
para sempre, como se não houvesse ontem ou amanhã. Eu, por muitas vezes, até
achava que finalmente a gente tinha se entendido dessa vez.
No
geral, tivemos uma boa primavera. Ele cozinhou muito. Sempre gostei, é uma
comida de homem, como ele gosta de chamar. Ervas, temperos, pimentas, sal.
Também tomei muito café. Café de homem também, café macho, na verdade. Ele
sempre era tolerante. O cigarro não incomodava, minha ausência não incomodava.
Minha presença, especialmente, não incomodava. Muitos domingos, ele cozinhava e
a gente bebia. Eu bebia pouco, nunca achei que fosse ocasião para investir
muito. Mas bebemos, sim, caipirinhas, cervejas, outras vezes, chegamos até a
ter umas talagadas de cachaça pura ou rum. Eram importantes para ele, se sentia
orgulhoso. Em certa medida, e em algum momento da minha vida, eu tinha me
tornado um homem. Um homem diferente, pelo menos, do que ele esperava. Mas, no
fim das contas, eu quase sentia que ele estava orgulhoso. Era tocante, ou
quase. Vivíamos nessas ambiguidades. É, tivemos uma primavera plena. Uma
primavera.
No
verão, as coisas pareciam continuar agradáveis. E estavam, até um evento
familiar, desses que parecem inofensivos. Festa de criança, sabe. Só que os
doces amargaram. Eu não presenciei a confusão. Alguém me disse, não me lembro
mais, que eu estava envolvido de algum jeito. Não tinha certeza de qual o meu
envolvimento. Mas de certo que sim, era eu mesmo. Era sempre eu, ou sempre ele.
Ou sempre a gente. Eu estava tricotando com umas primas e tias. E ele com os
primos e tios. Em algum momento, talvez uma conversa enviesada, alguma piada
atravessada. Alguma coisa aconteceu, ninguém nunca me disse ao certo o que foi.
O doce amargou. Depois desse dia, as coisas degringolaram. Nossos momentos
juntos minguaram. Não falávamos mais, nem de política, nem do meu trabalho, nem
do dele. Soube, depois, que as coisas não estavam bem no trabalho dele. Não da
boca dele. Continuei tendo o café macho, o que já não se tinha com tanta
frequência eram as refeições em casa. No almoço, saíamos para comer. No jantar, eu comia sozinho, ele bebia
sozinho. Assim, eu imagino, sei que ele não bebia mais em casa. Ele vinha
dormir, geralmente, tanto depois do almoço, quanto depois da cerveja.
Não
sou hipócrita, eu também bebi sem ele. Não é isso, é outra coisa. É pior. Eu
deixei acontecer, eu não o procurei, acabei deixando as coisas esfriarem, logo
no verão. Foi um verão difícil, mas eu tive piores. Achei que, eventualmente,
as coisas melhorariam. Tive férias, no verão, achei que a distância ia ser uma
boa oportunidade. Quando voltei, era como se eu tivesse deixado tudo em
suspenso. Estava tudo igual, parecia que eu havia voltado à história no mesmo
ponto em que eu a deixei. Trabalhei como burro de carga, na volta das férias.
Me ocupei de todos os jeitos, a gente tem a falsa ilusão de que isso funciona,
de fato, eu tinha menos tempo para lamentar, mas tinha menos tempo ainda para
fazer qualquer coisa. Eu tinha tantos planos, tantas metas, objetivos, estava
obstinado, coisa que eu nunca fui. Estava, de alguma maneira, tentando ser
feliz, tentando ser leve. Foi um verão meu, em certa medida. Tudo eu, nada ele,
quase nada a gente. Eu fiz, eu quis, eu fiz e aconteci. Foi meu aniversário, eu
fiquei doente, precisei dele. Ele esteve lá, ou quase lá, foi quase presente,
quase todos os dias. Quando melhorei, eu resolvi comemorar meu aniversário com
alguns amigos, acho que ele esperava que eu o convidasse, não achei que fosse o
caso. Não tivemos um verão.
Do
outono, eu quase não me lembro de nada. Acho que continuei na mesma.
Continuamos, o outono não foi só meu, mas não foi dele. Tive vontades,
reprimidas, cuidadosamente. Pessoas que haviam sido, não eram mais, eu achei
que fossem, e, no fim de tudo, não eram mesmo. Não me lembro de quase nada,
acho que eu acabei esquecendo das coisas. O outono precedeu nossa pior época,
acho que, por isso, acaba ficando quase incólume quando tento recordar. Foi um
outono de muitos eventos sociais, formaturas, aniversários, eventos no
trabalho. Dúvidas, foi um tempo de muitos questionamentos. Sobre tudo, se isso
me exime de tentar lembrar quais foram os questionamentos. Ah, existe algo de
que me lembro bem, houve, no outono, uma espécie de sequência do evento
familiar do verão. Dessa vez, foi mais claro entender quais eram as questões a
meu respeito envolvidas. Tínhamos um outro aniversário para ir, brigamos e ele
acabou não indo. Eu fui, humilhado, mas fui. Foi doloroso, eu nunca havia me
sentido tão desamparado. Essa é, provavelmente, minha principal lembrança do
outono. Eu tentei me libertar de papai durante o outono, acho que isso me fez
esquecer de boa parte das coisas. Acho que eu não tive um outono, ou meio que
tive.
Finalmente,
veio o inverno. Fiquei com medo de acabar morrendo nos clichês das estações do
ano. Depois refleti, de fato foi assim mesmo que tudo aconteceu, então, fiquei
com medo de ter vivido um clichê, de toda a minha vida ser um enorme clichê.
Acabei refletindo mais e é isso mesmo. Viver é clichê. A vida é trivial. Enfim,
o inverno foi de fato o pior, mesmo. Eu sobrevivi ao verão, me esqueci do
outono, mas o inverno veio implacável. Tudo piorou. Consegui outro trabalho,
havia voltado a me dedicar aos estudos, não podia pensar em mais nada, ou em
ninguém. Não podia sofrer, não havia maneira, eu pensava. No fim do outono,
minha mãe veio de férias, quando ela foi embora, eu voltei a reparar no meu
pai. Ele, agora, bebia sete vezes por semana e trabalhava. A gente mal se
falava, eu achava que tinha me libertado dele no outono. Tive um problema em um
dos empregos e acabei sendo demitido. Uma maré de problemas veio, como num dia
de ressaca, e me arremessou pro fundo do mar da amargura e do azedume. Eu
estava azedo, intragável, intolerável. Ele não olhava na minha cara, eu, às
vezes, me esquecia de que ele morava lá. Poucas vezes que nos falamos,
brigávamos por qualquer coisa, solenemente, como eram as conversas do verão, só
que aqui eram brigas. Sobre os nossos posicionamentos políticos, sobre o meu
trabalho, sobre o dele.
As
coisas foram ficando insustentáveis, nos fins de semana era tudo pior. Quando
estávamos em casa, me recuso a dizer que estivemos juntos em qualquer desses
dias, era constrangedor. Quarenta e oito horas, praticamente, trancafiados num
apartamento sem trocar um bom dia que fosse. Nada. Ele fazia a comida dele, eu
saia para comer. Eu voltei a fumar em casa, costumo negar que tenha sido uma
tentativa de fazer com que ele me notasse, mas acho que foi isso mesmo. Eu
achei que no verão eu tivesse, mesmo, secado minhas lágrimas, mas como eu
chorei. No fim de tudo, eu estava tão entorpecido, anestesiado por estar
submerso numa melancolia e em pensamentos nostálgicos sobre a minha infância,
que quase não senti nada. O fim começou quando eu viajei a trabalho. Eu passei
cinco dias fora, havia comunicado, solenemente. Ele fez que sim, como quem não
se importasse. Quando voltei, cheguei em casa e ele não estava, nem no outro
dia e nem no outro. Fui trabalhar, voltei e nada. Tentei falar com ele, nada.
Nesse mesmo dia, à noite, eu coloquei em caixas de papelão tudo que era dele,
todas as roupas, todos os calçados, todas as coisas. Tudo. Arrumei tudo na
sala. Eu estava tranquilamente aflito, ou aflitamente tranquilo. Me servi um
uísque, sem gelo, só uísque. Acendi um cigarro e me prometi refazer o ritual
até que eu escutasse o som da chave na porta e ele entrasse com a mesma cara de
sempre, como se nada tivesse acontecendo. Não precisei de muito, na segunda
dose, ele abriu a porta. Na quinta, ele fechou.
nossa ... muito bom o texto. como faço p te conhecer ?
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